Machado de Assis, uma vida diplomática
Por Ary Quintela*
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Já discutirei o uso do vocábulo, mas antes convém pensar sobre o gênero de obra que é o livro. Se o gosto do leitor é por biografias cronológicas, repletas de detalhes irrelevantes para a compreensão da personalidade do biografado, esse livro não é para ele. Tampouco é uma análise minuciosa das obras de Machado. |
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C.S. Soares explica o seu propósito no capítulo 8, “O órfão imaginista”, onde também joga um pouco de luz sobre a importância do conceito de “silêncio” no universo machadiano. Esclarece que pouco sabemos sobre a infância do biografado: “As condições socioeconômicas de Machado e sua família ajudam a explicar a escassez documental. Negro, pobre, neto de ex-escravizados, ele pertencia a uma camada que vivia às margens dos instrumentos de preservação oficial, arquivos, retratos, escrituras”. |
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O mesmo capítulo revela o sentido de O Filho do Inverno. Expõe a profissão de fé de C.S. Soares: “Escrever sobre Machado, portanto, é escrever contra esse apagamento” e, ao mesmo tempo, “recusar-se a ser cúmplice da omissão”. O biógrafo de Machado de Assis precisa ser “jardineiro de vestígios”, que “rega raízes invisíveis”. |
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Uma tônica do livro de C.S. Soares é como tantas das mazelas do Brasil do século XIX explicam o país de hoje e nele se perpetuam. No capítulo 5, avalia que, do século XIX para cá, “a brutalidade contra os corpos negros não cessou, apenas mudou de vestimenta e aperfeiçoou seus instrumentos”. Assim, a “exclusão que moldou o país” explica a lacuna documental em uma sociedade que “marginalizou sistematicamente os corpos negros, as vozes negras, as experiências negras”. |
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O Filho do Inverno não é uma biografia romanceada, embora ocasionalmente o autor descreva cenas como se as tivesse presenciado. O objetivo não é inventar, é “escavar o que sobra, recompor contextos, escutar ecos”. E isso faz C.S. Soares, magistralmente. |
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Não à toa, mais para o final do livro o autor cita André Maurois, lembrando que o escritor francês “perguntava se a biografia seria uma ciência exata ou uma arte imprecisa”. Estima o biógrafo de Machado de Assis que seja ambas e mais: um “esforço de tradução entre o visível e o oculto”. |
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Tudo o que aprendi na adolescência sobre Shelley, Byron, George Sand, Victor Hugo, Disraeli — que, além de primeiro-ministro na era vitoriana, foi também romancista — eu o devo às biografias que sobre eles escreveu Maurois. Seu volume sobre Proust, que reli com prazer não faz muitos anos, ficou superado apenas porque desde o lançamento, em 1949, novas cartas foram reveladas, obras vieram a público, a compreensão da gênese e da evolução de À procura do tempo perdido se aprimorou. Como mencionei em coluna anterior, “Lendo Proust no Brasil”, os estudos se multiplicaram. |
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Esse é um ponto importante. Cada geração precisa de mais biografias das figuras de relevo do passado. As percepções mudam, o conhecimento se aperfeiçoa, descobertas ocorrem. Sorrio sempre quando leio em uma resenha que determinada biografia sobre uma personalidade histórica é a “definitiva”. Esse é um conceito absurdo. O futuro entenderá aquela pessoa com nuances diferentes das nossas. |
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Machado, o Filho do Inverno é a biografia de Machado de Assis apropriada para esta primeira metade do século XXI. É uma visão pessoal, mas crível, sobre a vida e a personalidade do nosso maior escritor. Insere o biografado no contexto da época, a qual nos faz conhecer melhor. |
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Esta é uma obra que, além de biográfica, narra a experiência de ler, estudar e escrever sobre Machado de Assis. É um passeio pelas sensações que aprender sobre sua vida pode causar. Coloca-nos frente ao biografado, como se fôssemos seus contemporâneos. Visualizamos os cenários, entendemos os atores, ouvimos os sons, captamos os sentimentos. |
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A maneira como C.S. Soares apresenta seu material nos faz pensar de forma inovadora sobre Machado. Fatos, ideias que estiveram sempre à nossa disposição, diante de nossos olhos, graças a este livro tomam corpo e se tornam nítidos. |
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Como diplomata, fiquei impressionado com o que aprendi sobre o interesse de Machado de Assis pela política externa. A Guerra do Paraguai, a execução de Maximiliano no México, atritos entre o Império brasileiro e o Uruguai, a China, a situação da Polônia subjugada pelo Império russo: o olhar desse homem que nunca saiu do Brasil se pousava constantemente sobre o exterior. |
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C.S. Soares faz bom uso de um artigo publicado na imprensa brasileira em 2024 por Xi Jinping, quando participou no Rio de Janeiro da Cúpula do G20. O líder chinês menciona o simbolismo de Cecília Meireles e Machado de Assis terem traduzido poemas da dinastia Tang, indicando “uma sinfonia mental que conecta os dois países”. Machado, amigo em vida de alguns diplomatas, torna-se assim, postumamente, ele próprio um agente diplomático. |
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Machado de Assis “aprendeu a ocupar o centro. Não com alarde, mas com gramática. Não com armas, mas com substantivos”. Esta é uma biografia celebratória da influência e da liberdade adquiridas pela leitura, a escrita, a instrução. Com uma pena, pode-se vencer a exclusão. O silêncio, assim, torna-se “método”. Pode-se dizer mais por meio de um romance, uma crônica, um conto, do que vociferando em praça pública: “o silêncio é uma forma superior de dizer”. |
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Na altura em que Machado, o Filho do Inverno termina, acaba de ser publicado Memórias póstumas de Brás Cubas. Impacientemente, fico me perguntando como C.S. Soares abordará, no segundo volume, os anos de glória, a abolição da escravidão, a queda do Império, a fundação da Academia Brasileira de Letras, a morte de Carolina e o fim do próprio escritor. |
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Uma vez mais surgirão, pela sua mão, novas percepções e uma nova compreensão. |
*Dta brasileiro, escreve quizenalmente no jrnal O Estado de Minas.
Originalmente publicado em https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/FMfcgzQhWTmczmnPrkknNpMLBdCZpMXw