A velhinha da lambreta
Marcio Aurelio Soares*
Ir e voltar no mesmo dia para São Paulo é mesmo entediante. Difícil o dia em que uma das pistas do Sistema Anchieta-Imigrantes não esteja interditada por causa de acidentes, carros ou caminhões enguiçados. O que deveria durar hora e meia passa de duas horas de estrada. Chega-se ao destino já cansado. O retorno é um suplício.
Não faz muito tempo, foi diferente. Fiz algumas dessas viagens acompanhado por um amigo escritor. Fazíamos um curso de literatura na capital. Vinte e duas horas, fim de aula, início de nossa aventura de descida.
Falávamos sobre livros. O que mais poderíamos falar? Lembrei-me de Stanislaw Ponte Preta, heterônimo do jornalista Sérgio Porto, que, em plena ditadura militar, criou o FEBEAPÁ — Festival de Besteira que Assola o País —, série de textos satíricos sobre os absurdos daqueles tempos. Em uma deles noticiou a decisão da ditadura militar de mandar prender o autor grego Sófocles, que morrera havia séculos, por causa do conteúdo subversivo de uma peça encenada na ocasião.
Meu companheiro de viagem ainda se lembrou uma de sua crônica de Stanislaw sobre uma velhinha que, todos os dias, atravessava na fronteira do país dirigindo uma lambreta com um saco na garupa. Parada pela polícia, desconfiada de contrabando, informava que carregava areia. Incrédulos, os policiais abriram o saco e despejaram todo seu conteúdo no chão. De fato, a velhinha carregava areia.
Assim foi por mais de um mês. Todos os dias, os policiais a faziam parar e esvaziavam o saco da velhinha no chão, sem encontrar nada além de areia.
Cansados daquela rotina, os policiais pararam a velhinha mais uma vez, a fizeram descer da lambreta e um deles disse, quase implorando:
— Vovozinha, eu sou um policial experiente, ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
— Mas no saco só tem areia, insistiu a velhinha.
E quando já subia em sua lambreta, o policial propôs:
— Juro que não iremos mais parar a senhora, que poderá passar na fronteira a hora e o dia que quiser sem ser incomodada. Dou-lhe minha palavra. Mas me diga, o que a senhora está contrabandeando?
— O senhor promete que não vai fazer nada contra mim?
— Juro.
— A lambreta.
Naquela noite, São Paulo ficou mais perto de Santos.
*Médico e escritor