Chaguinhas, o santo negro da Liberdade
Quilombo, longa-metragem de Cacá Diegues, teve sua pré-estreia em São Paulo acolhida pelo suntuoso Cine Metrópole, no dia 6 de junho de 1984. Fui ver, cheio de curiosidade. Era estudante do 2º ano da graduação em jornalismo, e servidor numa repartição pública situada ali perto, num prédio com saída para a Avenida São Luiz e para a Rua Bráulio Gomes, ambas desembocando na Galeria Metrópole, onde fica ainda hoje o cinema.
A São Luiz, no entanto, avança para a Praça Dom José Gaspar e para a centenária Biblioteca Municipal Mário de Andrade, que por sua vez olhava cúmplice para a sede do Diário Popular, então vizinho do bar e restaurante Mutamba, onde foi criado, em fevereiro de 1980, o Quilombhoje, grupo literário do qual participei de 1984 a 1990, e que, além de ser a verdadeira escola que me formou como escritor, é também responsável, desde 1983, pela edição da antologia anual Cadernos Negros, atualmente no 46º volume.
Tive a sorte de ter vivido a maior parte daquela década nesse lugar articulado pela encruzilhada da Consolação com a São Luiz, já que esse espaço-tempo – mais tarde me dei conta – explica o meu passado e projeta o meu futuro. Por isso foi marcante ver o filme, sobretudo a cena em que Zumbi, ao retornar à presença do padre que o educara desde a infância, antes de ele se juntar aos quilombolas de Palmares, pega pela parte mais curta da haste o crucifixo oferecido pelo padre e o aponta para o alto, transformando-o numa espada. Era agora um guerreiro – “guerreiro mor capitão / da capitania da minha cabeça”, como canta Gilberto Gil na trilha especialmente composta para o longa. Muitos anos depois, com a experiência da vida, é que fui constatar como aquela cena me ensinara o significado de “encruzilhada”.
Eis a abordagem de Liberdade ou Morte: histórias que a História não conta, websérie em sete episódios realizada pelo Instituto Tebas de Educação e Cultura, numa interpretação crítica do projeto de nação veiculado pelo grito da independência, cujo bicentenário foi comemorado em setembro de 2022, em plena retomada das mobilizações de rua pós-pandemia.
Ao narrar os bastidores do enredo que a Escola de Samba Mocidade Unida da Mooca (MUM) levou para o Sambódromo do Anhembi no carnaval de 2023, Chaguinhas: o santo negro da Liberdade celebra também o Movimento dos Aflitos, que desde 2018 vem colocando em xeque a narrativa única do bairro da Liberdade como território exclusivamente oriental.
Originalmente publicado em https://outraspalavras.net/historia-e-memoria/cinema-chaguinhas-o-santo-negro-da-liberdade/