Conhecer a diversidade nos permite fazer escolhas
Prof. Marco F*
"Filho é bom, pena que dure muito" . Essa frase, claramente uma brincadeira, me faz pensar no que acontece quando os filhos crescem e deixam de concordar com tudo o que dizemos. Crianças pequenas acham os pais, ou quem as cria, maravilhosos, perfeitos. Na adolescência, os consideram retrógrados e desatualizados, chegam a ter vergonha deles perante seus amigos. Acreditam saber mais sobre a vida do que os adultos. Arrogância, mas revestida de boas intenções. Querem mudar o mundo, nos irritam, mas nos fazem refletir.
Há também outra frase famosa, aquela que repetimos quando nos desentendemos com alguém: " prefiro mil vezes o meu cachorro !" .
Por que crianças pequenas e pets nos são mais simpáticos? O que há em comum entre eles?
Não nos contrariam. Para seu filho pequeno tudo está bem, desde que lhe ofereça comida e entretenimento. O cachorro fica ao seu lado mesmo que briguem.
" Eu não concordo com isso" ou " acho sua opinião ridícula " são frases difíceis de engolir, se provenientes de adolescentes. Afinal, em nossa avaliação " , esses moleques mal saíram das fraldas, não sabem nada da vida".
Você sabe o que é HOMESCHOOLING? Ao pé da letra seria a escola em casa.Os pais, tutores por eles escolhidos, ou pais e tutores juntos, assumem a responsabilidade de ensinar as crianças. Em casa, longe do ambiente escolar. Quem o defende, e adota na formação de seus filhos, pretende evitar erros do modelo tradicional de ensino. Algumas das justificativas para utilização do método são sensatas.
O ensino individualizado permite explorar os talentos dos jovens e aproveita habilidades de seus tutores. Imagine só aprender a jogar basquete com um astro da NBA, ou dirigir com Ayrton Senna!
Nas escolas públicas, e mesmo nas particulares, é impossível dispensar igual cuidado ou atrair atenção de todos.
O modelo de educação que oferecemos está ultrapassado. Em boas escolas, criatividade e raciocínio lógico são estimulados, mas em outras valoriza-se apenas a preparação para o vestibular, adiando para o ensino superior a tarefa de formar cérebros pensantes. Talvez por isso, alunos das turmas iniciais de boas faculdades têm demonstrado surpreendente imaturidade. E nas piores escolas, não existe nem a preocupação com os vestibulares.
Escolas foram feitas para que aprendamos a pensar. Brinco com meus alunos dizendo que " Química não serve para nada". Na verdade, descobrir os mistérios do mundo atômico e compreender os fenômenos que observamos é algo fascinante, mas decorar regras para " passar no vestibular" é ridículo.
" Professor, por que temos que saber a geometria da molécula de amônia?" . Sem usar isso para entender algo real , é absolutamente inútil.
Nesse aspecto, o HOMESCHOOLING permite abordagens mais inteligentes, em que os assuntos são discutidos de acordo com o interesse e desenvolvimento do aluno, e não decorados.
Aulas individuais são mais produtivas, questões são analisadas com maior profundidade, perde-se menos tempo do que em uma turma grande e heterogênea.
O grande problema desse sistema é que pode faltar o contraponto. Pais e tutores, em alguns casos, " protegem " seus pupilos de opiniões contrárias ao que acreditam ser o melhor para sua educação.
Adultos vão definir o que interessa que seus filhos ouçam ou aprendam, de acordo com convicções pessoais e experiências de vida. Acreditam que os farão felizes dessa forma. Temem que pensem ou trilhem caminhos diferentes.
Assim, ateus não gostariam que seus filhos seguissem alguma religião, católicos não admitiriam que fossem evangélicos, ou ainda mais impressionante, como se a escolha de um time de futebol fosse importante na definição de caráter de alguém, corinthianos não suportariam filhos palmeirenses, santistas não admitiriam filhos são-paulinos, e assim vai.
Robin, no seriado de TV da década de 1960, já dizia:
" Santa ignorância, Batman "!
Que pretensão nos imaginarmos donos da verdade ! " Eu não suporto comunistas " , " Esses caras da direita são uns idiotas" ou frases desse tipo são rasas. Comunistas, conservadores ou liberais podem ser bem intencionados ou não. Ateus , muitas vezes, são muito mais "religiosos" que aqueles que frequentam igrejas. " Rótulos foram feitos para produtos, não para pessoas" , li em uma dessas plaquinhas com frases de efeito. Não julgue, não rotule, não compare.
Minha mãe repetia algo que nunca gostei: " Quero tirar todas as pedras de seu caminho ". Entendo que isso é próprio de mães carinhosas, para as quais qualquer sacrifício é válido em nome do bem estar dos filhos, mas obstáculos são necessários para nosso crescimento e desenvolvimento. Se a vida fosse um videogame, teria sentido jogarmos em lugar das crianças para que não sentissem a frustração de não conseguirem avançar de fases?Vivemos de desafios.
Fora da escola, a criança não interage com outras pessoas de sua idade, mesmo que isso ocorra no clube, igreja ou com filhos de conhecidos. No ambiente escolar, no dia-a-dia,
a inevitável rotina causa conflitos e amizades se fortalecem. Quem não ouve opiniões diferentes, ou convive com colegas de todos os tipos, corre o risco de se tornar uma pessoa quadrada, um avestruz que, diante do novo, sente medo e esconde a cabeça no primeiro buraco.
Os pais devem sim " estudar " com seus filhos, a eles mostrar o que pensam , mas lhes apresentando argumentos. Não adianta criá-los em redomas .
A vida não é cartesiana, impossível controlar todas as variáveis, ter certeza de coisa alguma.
Coitado dos filhos superprotegidos, são sufocados pela insegurança dos adultos. As gerações mais novas vivem confinadas e isoladas em condomínios, clubes e shopping centers. Não podemos aumentar seu afastamento da realidade. Para que sejam pessoas corretas e éticas, respeitem as diferenças e não imaginem serem superiores a quem quer que seja. E procurem entender as motivações de atitudes ou opiniões contrárias ao que julgam ser correto, mesmo não concordando com elas.
Se não for assim, teremos adultos birrentos e intolerantes.
Famosos cientistas, pensadores e destaques em suas áreas de atuação, estudaram em HOMESCHOOLING. A escola para essas pessoas não lhes trazia satisfação . Para os gênios, o tradicional não funciona. Talvez dessa forma tenham conseguido desenvolver seus talentos de forma mais profunda, mas são pontos fora da curva.
Para a grande maioria, entretanto, resta uma opção intermediária, de equilíbrio: frequentar a escola regular e ter um tutor, um de seus pais ou contratado, que as oriente em seus estudos, aprofundando conhecimentos, suscitando dúvidas, estimulando desafios.
Marco Aurélio Roccato Ferreroni , Prof. Marco F
55 anos
Bacharel em Química pelo IQUSP-SP
Radialista, Jornalista