Mendel e a defesa contra o esquecimento Mais um encontro com Stefan Zweig
*Rodtigo Casarin
As leituras vão brigando entre si, se sobrepondo umas às outras, acontecendo em ritmos alheios aos meus desejos. Uma matéria ou resenha que preciso entregar. Mediações a fazer. Clube do livro. Júri de prêmio. Agora, as obrigações acadêmicas.
Enquanto isso, vontades se empilham ao meu redor. Os livros que tenho por perto e quero ler levam vantagem sobre aqueles que também desejo ler, mas não estão à mão. Por mais que faça planos, não tem jeito, o que guia minhas escolhas espontâneas é o imponderável. Aprendi a gostar disso.
Pretendia escrever sobre o caso do escritor de Nova York despejado por guardar mais de dez mil livros em seu apartamento. Coleciono histórias que em algum momento podem render uma coluna, uma edição da newsletter. Para os locatários de Mendel Uminer, a vasta coleção contrariava as regras do aluguel. Muita desordem, pode pegar fogo nisso tudo, argumentaram antes de enxotá-lo.
Pobre Mendel, bibliófilo protagonista de um drama que causou comoção entre apaixonados pela literatura. Caso da colega Juliana de Albuquerque, que em sua coluna na Folha lembrou de um outro Mendel cuja vida é indissociável dos livros: o personagem de Stefan Zweig.
Como vocês sabem, gosto de Zweig. “Joseph Fouché: Retrato de um Homem Político”¹ é um ensaio biográfico sobre um personagem odioso e fascinante. Apesar da escrita incompleta, o livrinho a respeito de Montaigne² tem momentos valiosos. E “Autobiografia: O Mundo de Ontem” é incontornável.
Zweig é fruto de uma Viena que era o centro do império austro-húngaro. Intelectuais que ajudaram a forjar parte do século 20 frequentavam os cafés da cidade e forravam as mesas com debates artísticos e discussões sobre mistérios da vida.
Até que esse mundo foi despedaçado pela Primeira Guerra Mundial. Mortes aos milhões. Antigos humanistas perdendo a esperança na humanidade. Dissolução daquele império. Mais tarde, novo golpe com enredo parecido. Mais divisões, mais mortes, ainda mais estupidez, desta vez com a Segunda Guerra.
Para um judeu como Zweig, sabemos, as ameaças eram mais graves, havia ainda mais motivos para temer a bestialidade. “O Mundo de Ontem” nos mostra como um punhado de imbecis é capaz de destruir a vida como conhecemos, desgraçar os lugares onde vivemos, arruinar planos e arrebentar sociedades.
Fazia tempo, coisa de anos, que carregava a vontade de ler a história do Mendel de Zweig. Sem nenhum exemplar por perto - o livro andava sumido de nossas livrarias -, a vontade sempre era atropelada por alguma outra vontade ou necessidade. Até que li a coluna de Juliana.
É agora, defini. Arrumei uma versão digital mesmo, paciência. Escolhi uma qualquer em espanhol. Numa sentada, me maravilhei com a novela de 1929 sobre um livreiro que se acomoda numa mesa de um café em Viena para, dali, tratar dos seus negócios. Conhece todos os livros, sabe onde encontrar cada exemplar, por mais raro que seja. Assim, vai atendendo as encomendas que lhe chegam.
Cerrado no seu mundo cheio de títulos, autores e anotações, Mendel é um sujeito peculiarmente adorável. Toca a vida fazendo com que preciosidades encontrem mãos acolhedoras, olhos atentos e mentes abertas. Seu papel é, acima de tudo, o de um confiável e competentíssimo intermediário da leitura.
Até que o universo de Mendel é destroçado. O clima começa a ficar sinistro com as mudanças causadas pela Primeira Guerra. A sombra se alastra e o livreiro, um judeu tal qual a mente que lhe criou, é levado para um campo de prisioneiros. O final da história narrada por um antigo cliente de Mendel é trágico - e teria como ser diferente? Até a memória sobre a sua figura, tão marcante para alguns, vira esmaecida ruína.
Postei uma foto da leitura nas redes e logo me chegou uma mensagem do escritor Miguel Sanches Neto. Falava de uma edição da obra que tinha acabado de sair pela admirável Arte & Letra, de Curitiba. É um livro-relíquia feito com muito esmero no laboratório gráfico editora: capa dura revestida de tecido, ilustrações de Ricardo Humberto, exemplares numerados.
O meu volume de “Mendel, O Livreiro” é o 240. De lá que tiro as palavras de Zweig vertidas para o português por Gisele Eberspächer:
“Só se criam livros para se conectar com pessoas com quem não se compartilha o ar e, assim, se defender contra o adversário implacável de toda a vida: a transitoriedade e o esquecimento”.
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Batendo um papo com o busto de Zweig no alto de algum morro de Salzburg.
Otiginalmente publicado em https://mail.google.com/mail/u/0/#search/leitor/FMfcgzQhWLSTRgTQbrtnpXdxtHznLCJB
* Crítico litetário

