Meu voto é das mulheres
Marcio Aurelio Soares+
Chamo-me Pedro, Carlos, Marco; sou negro, branco, amarelo; motorista, pedreiro, médico. Ora tenho barba, ora bigode; uso paletó, jaleco, macacão; à noite pijama ou camiseta velha. Guardo na lembrança os gols que fiz e os muitos que não fiz. Sinto-me um garotão, sendo um sessentão. Os cabelos já comportados, não chegam mais aos ombros, alguns fios rebeldes teimam em vir mais claros. Brancos? Jamais!
A esposa, racional, insiste em check-up; prefiro ketchup. Uma moça linda atravessava a rua, entortei o pescoço. Cãibra na certa. Vida dura. Só vida e fantasia.
Na consulta, a balança que teima em mostrar meu peso a mais; a bendita fita métrica — ou seria maldita? — escancara minha barriga; o toque retal é quase letal, e xixi que batia no teto é coisa do passado.
Carro velho é uma droga. O meu precisa trocar os amortecedores, o fluido do freio e os pneus traseiros. Mas ainda tem muita estrada para rodar.
Estava tão feliz me sentindo garotão. Sempre fui fanfarrão. Comecei a desconfiar de que as mulheres sempre estiveram alguns passos diante de nós. Na adolescência, as meninas amadurecem mais rápido que os meninos. Isso é fato. Na segunda adolescência, a dos cinquenta e tantos, elas chegam, mais uma vez, à nossa frente.
Por décadas confundimos força com maturidade. Achamos que ocupar os melhores cargos, receber os maiores salários e tomar as grandes decisões significava estar à frente. Não significava. Relegamos às mulheres papéis secundários e hoje basta olhar ao redor para perceber a confusão que fizemos.
Voltei para casa. Dirigindo meu carro velho, tive a oportunidade de perceber o quanto vivi, aprendi e amadureci. E quantos erros, humanamente, ainda cometerei.
Encontro meus filhos, homens e mulheres, preparando-se para a vida. Os netos começam a descobrir o mundo. Minha mulher, sessentona, segue andando alguns passos à minha frente. Talvez sempre tenha sido assim. Na juventude amadureceu antes de mim; agora envelhece melhor do que eu.
Nós, homens, passamos boa parte da vida acreditando que liderávamos a caminhada. Só depois dos cinquenta percebemos que, quase sempre, estávamos apenas tentando alcançá-las.
Se hoje houvesse uma eleição sobre quem entende melhor da vida, meu voto seria das mulheres. A sabedoria nunca foi privilégio de um sexo; apenas desconfio que elas costumam encontrá-la um pouco antes de nós.
*Médico e escritor