Música e literatura
Por GASPAR PAZ*
1.
Música e literatura apresenta nove escritos e reflexões resultantes de desdobramentos do projeto de pesquisa Transitoriedades poético-musicais, que vem sendo desenvolvido no Programa de pós-graduação em letras, da Universidade Federal do Espírito Santo, desde 2024. A ideia é a articulação de experimentações estéticas a partir de três ações que se complementam. O primeiro movimento intitula-se Impressões nômades.
Trata-se da produção de escritos, ensaios poéticos, crônicas e poemas que tematizam a vivência e a percepção política dos deslocamentos e transitoriedades cotidianas; O segundo movimento, Confluências, investe na intersecção música-poesia a partir da prática artística direta e desgarrada dos arroubos acadêmicos. Assim, a composição de músicas e letras populares ganha relevo por meio da valorização de ritmos brasileiros e latino-americanos variados, objetivando a construção de um repertório para registro e gravação experimental em estúdio.
Os enfoques 1 e 2 são, portanto, abordados de forma expandida, transgredindo fronteiras e limites entre música e poesia. Essas duas perspectivas se completam com a terceira modulação do projeto que diz respeito justamente a este livro Música e literatura, e que procura revisitar o ardor interpretativo de criações poético-musicais. São leituras sobre contextos sociais e políticos de cancioneiros populares e de movimentos culturais a partir de vertentes etnomusicológicas, literárias e filosóficas.
Embora o projeto tenha se iniciado em 2024, a frequentação das diversidades musicais e literárias atravessa toda a minha formação e se expande sobretudo no período em que vivi no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro de um mar inquieto e doce, mas também do azedo das ruas da Lapa depois da festa; Rio de águas correntes e malemolentes danças “morenas”; do salto de asa-delta, das ladeiras de Santa Teresa, de favelas e saraivadas de balas. Uma cidade que inspira tantos artistas que para ela convergem de todos os estados do Brasil e de outros países.
Rio de Janeiro de risos e ardores, que “quebra” na beira da praia sua poesia e musicalidade. Pelo Rio ninguém passa indene. Foi nessa cidade que reinventei a minha prática de músico-intérprete e redimensionei as referências teóricas que me acompanhavam e incitavam meus anseios imediatos. Esse itinerário foi amplificado com a acuidade dos temas da diferença e da alteridade, percorridos tanto pela descoberta das interpretações estéticas do filósofo Gerd Bornheim, como pelos estudos sobre as sonoridades, por meio do viés etnomusicológico, campo que me foi apresentado por Samuel Araújo, professor da Escola de Música da UFRJ.
2.
A etnomusicologia se desenvolveu à medida que buscou o alargamento das contradições apresentadas pela antropologia. Dessa forma, procurou “ir a campo” e salientar que a práxis sonora é fundamental para o entendimento das movimentações políticas, sociais e culturais. A partir dessa perspectiva, aliada a problematizações estéticas e literárias, passei a pesquisar a obra de Lupicínio Rodrigues (autor que me chegou pelas longas jornadas noite adentro na boemia porto-alegrense) e me interessei por poéticas que incidem diretamente na ambiência urbana das grandes cidades.
Essas manifestações artísticas e culturais sempre souberam entender, tensionar, harmonizar, enfrentar e por pra jogo, problemas latentes que muitas vezes passam despercebidos. Tais sonoridades e narrativas poéticas são balizas disparadoras do espírito crítico num mundo de obliterações, negações e exclusões.
Essas resistências afloraram o tema do primeiro ensaio deste livro, “Interpretação e canção popular (anotações sobre Lupicínio Rodrigues e Paulo Leminski)”. Ele seguia o aceno da crítica que eu ensejava alcançar na pesquisa de mestrado na UFRJ, no início dos anos 2000. Alguns anos depois, em 2011, convidado por Tiago Barros e André Masseno, fui debater o tema com outras/os pesquisadoras/es, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. As contribuições do evento foram compiladas numa publicação intitulada Para ouvir uma canção. Algumas dessas questões foram também debatidas no período em que realizei um estágio doutoral na França e publicadas em francês na revista italiana Dada Rivista di Antropologia Post-Globale (2012).
O segundo capítulo deste livro é uma entrevista descontraída realizada em 2024, na qual recapitulo a oralidade e a projeção dessa relação poesia e música, através de exemplos de manifestações populares como o slam e o repente nordestino. Essa trilha multivocal que perpassa o canto-falado de Lupicínio Rodrigues, as canções-haicais-pichações leminskianas e a dialética dos movimentos populares, me mostrou as várias faces e arranjos linguageiros e me incitou a compreender melhor e a tomar posição sobre a realidade brasileira e latino-americana.
Essas formas de mergulhar na escuta do cotidiano e relativizar velhas cristalizações só foram possíveis pela interlocução continuada que mantive com Samuel Araújo e com pesquisadoras/es do Laboratório de etnomusicologia da UFRJ, especialmente Vincenzo Cambria, Luiz Fernando Nascimento Lima, Virgínia Barbosa e José Alberto Salgado, mas também com convidados que participavam dos encontros que organizávamos (Música em debate) e que me impressionavam pelas questões que traziam para a mesa de discussão, como: Rosângela Tugny, Rafael José de Menezes Bastos, Deise Lucy Montardo, Elisabeth Travassos, Flávia Toni, Hermano Vianna, Carlos Sandroni, Bruno Nettl, Anthony Seeger, entre outros.
3.
Cada uma dessa vozes trazia à cena outras vozes, construindo assim uma polifonia instigante, que segundo Samuel Araújo, motivava uma nova crítica que adentrava o espaço público “mais afeita às nuances e violências da nossa miséria intelectual e moral”. Esse mote inspirou o ensaio “Samuel Araújo: a práxis sonora como forma de ação política e como espaço da alteridade”, publicado inicialmente num dossiê da Revista brasileira de música que homenageou Samuel Araújo em 2019.
O vigor dessas leituras musicais já estava presente alguns anos antes (2014) quando Carlos Sandroni, que havia me recebido em Paris e indicado pesquisadores-etnomusicólogos da Université Paris X, me convidou para escrever uma resenha para a revista Claves (da Universidade Federal da Paraíba). Motivado por uma conversa que tivemos em Paris, levemente hidratada com panaché, resolvi discorrer sobre leituras que fazia na BNF e em outras mediatecas públicas da cidade de Paris (superequipadas de livros, áudios e vídeos sobre músicas do mundo), e escrevi sobre Musiques – une encyclopédie pour le XXIe siècle.
O ensaio seguinte, de 2024, revela um outro limiar da relação entre música e literatura, o investimento em discussões sobre o testemunho. De fato, os incontornáveis traços políticos e sociais das realidades brasileiras se redimensionaram nos estudos da música, da literatura e de outros campos artísticos com as manifestações de rua dos anos 2013, com o golpe de 2016, e com toda a desconfiguração socioeconômica dos anos que se seguiram.
Como já estava à flor da pele com a descoberta de dossiês militares contra o filósofo Gerd Bornheim, graças à abertura dos arquivos da ditadura pela presidenta Dilma Rousseff, procurei entender também o que se passou com Caetano Veloso naquela mesma época, músico cuja interpretação admiro desde que comecei a estudar violão aos oito8 anos de idade.
Me deparei então com o livro Narciso em férias, de Caetano Veloso, na vitrine de uma das poucas livrarias de Vitória. Comprei o livro, comecei a leitura naquele mesmo fim de tarde e não consegui soltar o livro antes de terminar a leitura no final da noite.
Tratava-se de um capítulo de Verdade tropical, que ganhava outra significação porque publicado naqueles anos 2020 (com o bolsonarismo e a extrema-direita militarizando a política brasileira), e pelo anexo da edição, que incluía os documentos de estado completos contra o músico baiano. A revelação de processos contra Caetano Veloso pela ditadura militar, a partir de documentos encontrados pelo músico no Arquivo Nacional em 2018, e a publicação do livro Narciso em férias, são importantes elementos para pensar e contextualizar sua atuação em tempos da violência explícita dos anos 1964 a 1985, reeditada de diferentes maneiras entre os anos 2016 e 2023.
4.
No livro, Caetano Veloso narra em detalhes (e em estilo literário) a violência e a prisão que sofrera nos anos 1960. Nessa ambiência, em 1968, ao lançar o Compacto Simples com a música “É proibido proibir”, o autor já questionava, como observa Luiz Carlos Maciel, a “afirmação repressiva dos valores estabelecidos pela estrutura social vigente”, levando em consideração tabus sexuais, familiares e processos manipulatórios capitalistas.
Além disso, já intuía os estragos da estrutura jurídica, econômica e social brasileira e sentia na pele as atitudes policialescas contra a liberdade artística e cultural. Essas percepções da realidade social brasileira foram amplificadas pelo compositor e poeta em canções como “Terra” e “Podres poderes”.
Para escrever o ensaio que agora compõe este livro, fui ouvir os LPs de Caetano e Gil, raro prazer estético em tempos de sobrecarga universitária, na tentativa de flagrar aspectos estéticos e políticos de algumas músicas do autor, interpretando-as com base na leitura de Narciso em Férias, de entrevistas e interlocuções de Caetano Veloso e Gilberto Gil com Augusto de Campos (em Balanço da bossa) e de recensões da época produzidas para O Pasquim pelo escritor Luiz Carlos Maciel e republicadas no livro Underground (2022).
Os dois capítulos seguintes tratam da musicalidade poética de Jean-Luc Pouliquen. O primeiro, “Linguagem, sonoridade e experiência poética em Jean-Luc Pouliquen”, escrito e publicado em francês, quando participei (em 2015) de um colóquio na Université Sorbonne Nouvelle, foi traduzido para o português brasileiro (especialmente para esta edição) por mim e por Cristina Moura; Já o segundo é um diálogo com o poeta, pequena amostragem dos vários anos de interlocução literária e musical, em que falamos sobre a música brasileira, os alargamentos culturais, a poesia de língua d’Oc, os poetas de Rochefort e os surrealistas.
5.
Essa entrevista foi publicada em francês e traduzida para o português brasileiro para esta edição. Jean-Luc Pouliquen figura nos três eixos do projeto Transitoriedades poético-musicais, já que é a motivação de um dos temas do ensaio poético sobre a tradução no livro Impressões nômades (Editora Cousa, 2025), está presente ainda, pois é um dos compositores-parceiros das letras de músicas do segundo eixo de experimentação e registro de canções em estúdio, e agora reverbera nesses ensaios sobre música e literatura.
Quero sublinhar ainda que Jean-Luc Pouliquen me apresentou a vertente poética do filósofo francês Gaston Bachelard. Esse elo com a filosofia da arte e a estética reativa os diálogos e as influências generosas que tive de Rosa Dias, Olgária Matos, Marly Bulcão, Muriel Maia-Flikinger, Kathrin Rosenfield, Julio Bressane, Dominique Chateau e Gerd Bornheim.
É, portanto, a filosofia que costura os derradeiros ensaios “Traços derridianos que se mesclam entre as linguagens artísticas” e “Rilke, leitor de Nietzsche”. “Traços derridianos” foi apresentado num colóquio sobre Jacques Derrida, organizado por Rafael Haddock-Lobo, Carla Rodrigues, Alice Serra e outros pesquisadores na UFRJ, e publicado em seguida na coletânea Heranças de Derrida – da linguagem à estética (NAU Editora, 2014). “Rilke, leitor de Nietzsche” foi apresentado no XLVI Encontros Nietzsche e publicado na Coleção Nietzsche em perspectiva, volume 7 (Editora CRV, 2022).
As leitoras e leitores perceberão que fui tecendo aqui uma trama que conecta os textos por afinidades temáticas e que revigora espaços-tempos, indo e voltando, como se mimetizasse o ostinato das marés, no desassossego e defasagem da cronologia, espécie de navegação de cabotagem jorgeamadiana, justamente para mostrar a atualidade, as marcas, e a consistência do percurso da memória. Sem mais delongas, este livro é um convite ao diálogo que se deixa ecoar entre falas-cantos-escritas.
Gostaria de agradecer a amizade, o carinho e a interlocução de algumas pessoas que me acompanharam durante esse itinerário: Cristina Moura, Rosa Dias, Olgária Matos, Olga Cafalchio, Junia Zaidan, Wania Rocha Feitosa, Samuel Araújo, Carlos Scherer, Vincenzo Cambria, Vitor Cei, Raoul Kirchmayr, Jean-Luc Pouliquen, Khodayar Fotouhi, Elena Bertoncini, Mathieu Aubert, André Queiroz, José Luiz Vivian (in memoriam), Sandro Dornelles, Mano Viana e Yuri Popoff. Por meio desses nomes, represento aqui todos os outros que estiveram e continuam presentes nesses anos cada vez mais necessários de música e literatura.
*Gaspar Paz é professor Departamento de Teoria da Arte e Música da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Autor, entre outros livros, de Interpretações de linguagens artísticas em Gerd Bornheim (Edufes).
Referência
Gaspar Paz. Música e literatura. Vitória, Edufes, 2026.
Disponível para acesso gratuito neste link.
Notas
Essa etapa do projeto resultou no livro PAZ, Gaspar. Impressões nômades. Vitória: Cousa, 2025.
A Lapa é um bairro boêmio do Rio de Janeiro que costuma conglomerar muita gente. Possui diversas casas noturnas que apresentam um contexto musical variado: Choro, pagode, capoeira, funk, hip hop, rodas de samba, casas de forró, gafieira, peças de teatro, entre outros.
Otiginalmente publicado em https://aterraeredonda.com.br/musica-e-literatura/
