Ney Matogrosso dialoga com o Brasil num ato sexual para o qual fomos todos convidados
Taissa Maia
Rememorar a idade que consta em certidões, no caso de um intérprete como Ney Matogrosso, torna-se curiosamente contraintuitivo. Elogiado pela saúde de seus joelhos, o verdadeiro menino Ney construiu uma carreira camaleônica, inscrevendo muitas vidas num só corpo. No entanto, o que nos reúne neste aqui e agora – esboçando ou lendo estas palavras – são os seus 85 anos.
Para homenageá-lo, quero observar principalmente o seu primeiro disco solo, Água do céu-pássaro, lançado em 1975. A obra traz consigo alguns gestos que nos levam a discutir questões de gênero, sexualidade, brasilidade e latinidade, através de um projeto esteticamente ousado. Talvez, com as chaves de leitura forjadas neste texto, o público da Jacobina possa analisar não só o trabalho em questão, mas outros momentos da discografia de Ney Matogrosso, ou, até mesmo, de outros artistas da MPB.
A primeira canção do disco é “Homem de Neanderthal”, de Luiz Carlos Sá. Com ela, Ney instaura um regime sob o qual atualiza o sujeito artístico presente desde o grupo Secos e Molhados. Trata-se de um processo de subjetivação que rompe com o indivíduo racional, apto a conviver numa civilização ocidental, eurocêntrica, branca, heterossexual e por aí vai.
Afirmando ser um homem primitivo, abre a porta da fantasia para elaborar a si mesmo num jogo de desconstrução vicejado por suas escolhas estéticas.
Antes de prosseguir, é preciso definir como a desconstrução aparecerá neste texto. A palavra, tão presente no nosso contemporâneo, remete ao pensamento de Jacques Derrida, filósofo nascido na Argélia, mas radicado na França. Suas obras, sobretudo as das décadas de 1960 e 1970, nos ajudam a delimitar o termo.
Para o autor, os discursos da filosofia ocidental – que nos influenciam até hoje –, estruturam-se por oposições, como cultura/natureza, atividade/passividade e homem/mulher. Ao invés de representar um par harmonioso, tais dicotomias são erguidas de forma violenta, formando uma hierarquia entre ambos os polos. Nesse sentido, a linguagem mantém as opressões como, por exemplo, a de gênero, carregando a pretensa superioridade masculina na própria formação discursiva que utilizamos para interpretar o mundo. Contudo, dentro da lógica binária há a marca da diferença. Ela está à espreita, expõe a fragilidade dessa lógica e desampara o que está posto como norma.
A desconstrução, por sua vez, seria a operação discursiva de inverter oposições clássicas. O objetivo não é fundar uma hierarquia do avesso, nem mesmo fixar uma nova identidade; é dar voz ao historicamente rebaixado, a fim de perseguir o constante deslocamento. Por fim, é um gesto de multiplicidade que nunca se fecha; é o aceno, ao mesmo tempo recorrente e incalculável, à diferença.
Em “Homem de Neanderthal”, notamos que as escolhas musicais e poéticas dialogam com a desconstrução do par cultura/natureza numa alusão ultramoderna ao não civilizado. Instrumentos e sonoridades do rock psicodélico se misturam com barulhos da floresta. Ao confundir gramáticas distintas, Ney Matogrosso escancara as possibilidades dos gêneros masculino e feminino, modulando o seu canto a fim de convocar o par “homem” e “mulher”, bem como, mesclar informações sonoras de “tecnologia” e de “natureza”.
Assim, ele supera a cartilha que busca domesticar os corpos; torna obsoleta a noção de que há um corpo natural a ser conformado pela cultura, seu par hierárquico superior.
Em Ney Matogrosso, o corpo é potência; manifesta-se no masculino e no feminino a um só tempo, brincando com a androginia típica dos anos 1970. Mas não só isso, o corpo de Ney dança numa terceira perspectiva, que não é nem um e nem outro. Ele antecipa a teoria queer, como nos informa o pesquisador Tito Guedes em sua dissertação de mestrado “Nu com a minha máscara – Ney Matogrosso e os shows Seu tipo (1980) e Pescador de Pérolas (1987)”, defendida em 2026 na PUC-RJ.
Mais uma vez, acredito que a arte queer de Ney é ocasionada pela desconstrução da ideia ocidental do próprio “ser”. O flerte com o animalesco compõe personagens limítrofes, cindidos, que não são nem bicho e nem gente; mas neles, vemos isso tudo se deslocando simultaneamente. Portanto, o que é identificado é o flutuar entre as peles, não a pele em si.
Ney trata disso na quarta música do disco, “Pedra de Rio”, composta por Luhli, Lucina e Paulo César. O movimento do arranjo acompanha o movimento das palavras, deflagrado pelo pranto enxugado ao sol.
Num fluxo aquoso, o eu lírico revela ser a pedra de um rio que é o seu amado. Então, amante e amado são fundidos num correr que não cessa. A solidez da pedra se desfaz no seguinte trecho: “e no meu rio/ rio de pedra navego/ meu barco voa sem vela”. Ou seja, rio e pedra são feitos quase que da mesma matéria.
Ainda, é um barco sem vela que não tem um destino preciso. Aqui temos uma metáfora para a criação estética de Ney Matogrosso, que se recusa a permanecer, permitindo-se explorar diferentes significados de palavras como “corpo”, “homem” e “mulher”. Coloca-se em suspeita a tentativa de fechamento em torno de uma identidade; de uma tradução única conferida aos gêneros feminino e masculino. Ney não suporta por muito tempo nem mesmo um significado transgressor, sempre o desfazendo num elogio à diferença.
É uma estética que comenta a vida e sua dimensão ética, o que nos faz lembrar a terceira fase do pensamento do filósofo Michel Foucault, iniciada nos anos 80. Para o francês, a ética não se encontra em valores morais universais, mas no trabalho realizado sobre si mesmo, mirando uma subjetivação criativa. Quer-se buscar a beleza e a liberdade radical, vislumbrando a vida como obra de arte.
Com isso, lembro-me de uma entrevista dada por Ney Matogrosso ao Lampião da esquina, publicação gay dos anos 70. O trecho foi resgatado por Tito Guedes no seu trabalho já mencionado: “[E]u conversei com Caetano sobre isso uma vez; ele me disse que usava batom para agredir, e eu uso batom porque acho bonita uma boca pintada”.
Ney persegue o que é belo e sabe que, durante a perseguição, todas as normas serão demolidas. A beleza e a liberdade radical não se conformam em gêneros construídos ou em determinismos biológicos. Ney as tece e desfaz num ofício minucioso; é um curador dos destinos dos seus personagens.
Vale observarmos a relação de Ney Matogrosso com o espectador, saindo rapidamente do reino fonográfico para pensar os seus espetáculos ao vivo. Sobre isso, Ney vai dizer em seu livro de memórias, Vira lata de raça (2018), que sentia o seu trabalho como “um requintado ato sexual”, “como se fizesse sexo com o público”. O erótico tem um espaço importante na sua obra, permitindo que a ruptura com o sujeito racional também seja vista no transbordar do corpo em gozo.
É justamente no disco “Água do céu-pássaro” que encontramos um ótimo exemplo do que foi dito anteriormente. Na música “Açúcar candy”, de Sueli Costa e Tite de Lemos, a letra é explícita, “tua pistola dispara baunilha/ na minha boca/ no meu dorso”, terminando numa encenação de orgasmo. Um orgasmo que duela com a guitarra. É beleza, não agressão.