Odores
Giselle Larizzatti Agazzi*
Demorou muito para eu conseguir voltar àquele lugar, você sabe, né? Quer dizer, não é bem um espaço, assim, de chão e paredes, é um odor. Se é fedido? Não sei dizer, porque me acostumei. Na verdade, demorei para me dar conta de que o cheiro incomodava as pessoas...bem, devia desconfiar, porque, na infância, as crianças afastavam suas carteiras e evitavam ficar na fila junto comigo. No recreio, eu disfarçava a solidão, fingindo gostar de ler. A leitura disfarça a falta de jeito de estar com as outras pessoas e ainda garante a possibilidade de fixar alguma qualidade à pessoa. Odeio ler até hoje. A diretora chamava a mãe por causa do fedor de urina do meu uniforme. Era constrangedor, claro. Me fazia de sonsa, olhando para os cantos superiores da parede, como se estivesse distraída, um nó apertado na garganta. Queria desabar. Como a diretora sabia, a mãe não ia para a escola. E como ela também sabia, uma criança de sete anos não tem responsabilidade pelos cheiros que a habitam, eles pertencem, portanto, à esfera de responsabilidade – ou falta dela – de seus responsáveis. A diretora sabia que minha mãe era aquela que respondia por mim. E o que me perturbava de verdade não era meu isolamento. Se a dona Rina já sabia que a mãe era mesmo a responsável por aquele mau cheiro em que eu tinha me tornado, por que é que insistia em falar com ela? A tia dizia que precisava mesmo era do Conselho tutelar para dar jeito. Eu não fazia ideia do que era isso, só não suportava mais os livros, as teias de aranha na parede, a sala da diretora.
Essa podia ser uma parte da verdade, querer definitivamente acabar com a fedentina que tanto incomodava todas as pessoas da escola. Por onde eu passava, o assunto era o odor. A outra parte, difícil de ser sondada, é que o fedor a mim atribuído me era indiferente diante da alegria de sentir o corpo materno junto ao meu. Dentro de toda nossa miserável condição, tinha prazer em sentir nossas peles roçando entre um empurrão e outro. Minha mãe passou a urinar no colchão em que dormíamos juntas alguns dias depois da nossa mudança para a pensão: no meio de um sono pesadíssimo, interrompia o ronco, pegava a minha calça do uniforme da escola e ia até o banheiro, que ficava a uns dez passos do nosso quarto cubicular. Foi aí que comecei a feder e a entender que somos feitas de odores. Temia atrapalhar o sono da mãe, tentando preservar suas poucas horas de descanso. Já nos bastavam as tantas outras faltas, não seria eu a fazer pesar sobre ela mais aquela privação.
O quarto da pensão até que era bom, minha mãe dizia. O problema é que vaso sanitário só mesmo junto com os chuveiros na parte dos fundos da casa. Não adiantava tentar proteger o uniforme, porque era a roupa que ela gostava de pegar para ir do quarto até o banheiro coletivo. Ela não sabia que me prejudicava com sua incontinência urinária. Se soubesse, ela daria jeito? Não era culpa da mãe, segundo ela mesma dizia, mesmo sem ter consciência de que me deixava ir fedida para a escola. A mãe levantava umas três vezes para ir ao banheiro e, mesmo assim, quase todas as manhãs, eu sentia os lençóis úmidos.
Muitas eram as vezes que, além do colchão, ela também se mijava no corredor antes de acessar o vaso sanitário, esse sim reconhecidamente por mim fétido. Ficava pensando que se a professora Sônia, que torcia o nariz quando eu ia mostrar meu caderno, entrasse naquele banheiro, ia esbravejar como fazia com a gente quando deixávamos papel caído no chão. A casa de vocês pode ser um chiqueiro, mas aqui é uma sala de aula, e não tem porco fazendo oinc oinc. A gente tinha vontade dar risada com os sons bizarros que a professora fazia, mas todos temíamos que ela entornasse o caldo. Uma manhã, quando me joguei na carteira sabendo que seria outro dia de isolamento pelos odores fortes da mãe agarrados na minha pele, a professora chegou perto, querendo ver solução para o problema. Quer que eu fale com sua mãe? Fiquei sem responder, olhando sem saber como... então, ela não sabia que a dona Rina frequentemente tentava contato com a minha mãe?
No geral, minha mãe chegava bem depois de eu agarrar no sono, ouvindo a tevê do vizinho. A mulher dele me pegava na escola, junto com a sua filha. Engraçado que nenhuma delas falava nada do fedor que me impregnava. Só uma vez, quando precisei esperar na casa deles até a mãe chegar, porque naquele dia ela tinha trancado a porta por engano, é que ouvi o meu fedor na boca da vizinha. Não entendi direito, porque a mulher se apressou a falar em cima da reclamação do marido: se a gente ganha mais trazendo a menina da escola com a gente do que você traz do seu trabalho, tá querendo o quê? O marido, humilhado, saiu batendo a porta. A vizinha bufou.
Se eu dormia antes da mãe chegar, comendo o que ela deixava para mim, ela também ia trabalhar bem antes de eu acordar, usando, como sempre, minha calça do uniforme para ir ao banheiro. O que eu não entendia era o que impedia minha mãe de ir com a saia de todos os dias para o banheiro no meio da madrugada...será que ela sabia que os seus odores impregnavam nossos sonhos e, sabendo-nos tão distantes em ritmos de vida-mortes dragadas pela miséria, fazia questão de se fazer lembrar por mim estivesse eu onde fosse? Ou ela era como eu, que não sentia mais aqueles odores, que acompanhavam nossas dores diárias?
A primeira vez em que descobri que eu fedia foi quando, chegando atrasada à escola, tive de ficar no banco esperando que alguém autorizasse minha entrada. A coordenadora, sempre elegantemente vestida nos saltos que atravessavam o pátio, protegeu sua nuca quando chegou perto de mim. Antes mesmo de me dirigir a palavra, pediu para a secretária que ligasse para a minha mãe. E nada da ligação completar...sua mãe não atende ao celular? A conta não era paga há mais de três meses. Ela não ia acreditar, se eu contasse. Todas as pessoas têm algum aparelho telefônico móvel, era o que a professora dizia. Minha mãe está trabalhando, acho que não pode atender ao celular. Mas se você só tem sete anos e pode ficar doente na escola, sofrer um acidente, enfim, qualquer urgência, como é que ela não pode ver o celular? Ela não sabia que pessoas com o nosso cheiro só ficam doentes aos domingos e as emergências esperam para acontecer somente quando podem ser acudidas? Para quem mais podemos ligar? Eu tinha o telefone da casa da patroa da minha mãe, costurado na parte de trás da calça, mas não dizia nada. Sabia que não devia incomodá-la no serviço. Vou tentar falar com a sua tia, alguém precisa tomar alguma providência.
Olhei para o teto, em busca das teias de aranha. A tia não ia querer sair do meio da bebedeira para atender a quem quer que fosse da escola da sobrinha que ela dizia tanto amar desde que não desse trabalho e a ajudasse a conseguir mais um dinheirinho para a corote...Depois que se lembraram da minha tia, tentaram algumas vezes contato, mas o final era sempre o mesmo: a tia atendia com a voz engrolada, perguntava se ia receber algo, trocavam algumas falas ásperas e pronto. Eu assumia o mesmo comportamento de sempre: me encolhia e silenciava; quando tinha um livro por perto, enfiava a cara nele, buscando ser salva. A coordenadora chamava a diretora que reclamava não conseguir conversar com algum parente meu, era preciso conversar com algum familiar, não deixaria que fizessem minha rematrícula se continuasse daquele jeito, ia ter de chamar a responsável com urgência e e e.
Às vezes, e eu nunca conseguia decifrar o que movia a dona Rina para um lado ou para outro, percebendo a fome que me varava, acabava me mandando para a sala, temendo que eu perdesse, além das aulas, o horário da merenda. Pelo menos, nas primeiras vezes; depois, achando que devia me poupar de mais constrangimentos, passou a me mandar para a cantina diretamente, porque a professora não suportava meu fedor. E as crianças...Ir para a cantina foi uma boa solução, lá, pelo menos, eu olhava para o prato. Também tinha uma funcionária, que não ligava a mínima para o que dizia ser meu cheiro, sentando perto e até puxando papo comigo. Dizia que me conhecia, que o marido da vizinha era terrível, que eu tomasse cuidado com ele. Eu achava bonito ela vir falar comigo, enfrentando todas as outras pessoas que buscavam distância.
Tamanha insistência da diretora, da coordenadora, da professora acabou dando resultado. Quer dizer, parte dele. A mãe começou a ir para as reuniões e a ouvir os sermões da gestão escolar. Porém, nada aplacava meu mau cheiro. A mãe não assumia a ação necessária e parecia não entender do que tanto as pessoas reclamavam. A definitiva ocasião que nos expulsou da escola, foi quando a diretora nos atendeu no corredor, porque também não suportava mais meu mau cheiro. A conversa, ou monólogo, foi breve: impossível eu ir para a escola fedendo daquele jeito; como é que nós não nos dávamos emenda?
Naquele momento, eu e minha mãe diminuímos em tudo; saímos pequeninas da escola, minha mãe fechada em seus pensamentos, como se não tivesse entendido o que tinha acabado de acontecer. Eu temia perder a mãe, que deixassem o seu cheiro, eu não me importava. Peguei suas mãos soltas, que não queriam abraçar as minhas, negando entrelaçar seus dedos nos meus...talvez pelo meu mau cheiro. Será que era eu mesma que urinava na cama e ela também carregava meu fedor pelo resto dos dias?
E então comecei a faltar sem, entretanto, parar de feder. Mais de uma vez tentamos explicar para minha tia, irmã de minha mãe, que não se tratava de eu não querer ir para a escola: era a escola que não me queria. Me entristecia não poder continuar a aprender a ler e a escrever, ainda que eu detestasse os livros. A professora sempre dizia que era um pecado uma menina tão inteligente como eu ter o cheiro que tinha...
Nós nos arrastamos pela vida até que, entre banheiros de patroas que não se sentiam honradas pelas latrinas mal lavadas e discursos de gentes que não compreendiam por que ambas éramos tão fedidas, chegamos aos nossos limites. Nós não suportávamos mais ter de lidar com o que os outros pensavam sobre nossos odores, mantendo-se ignorantes das matérias de que eram feitas nossas existências.
Naqueles dias sem escola, ia ajudar minha mãe na limpeza das latrinas das patroas para, no ônibus de volta à casa, ler os livros que eu sempre acabava ganhando delas. Era praga, não tinha como deixar de enfiar a fuça nas páginas. Mas foi ganhando gosto, porque alguns dos volumes eram grossos e com muitas imagens. Cutucava a mãe na condução, mostrando aqui e ali. A mãe não sabia ler, mas fingia entender até que pegava no sono exausta novamente. Fui lendo e me salvando, ou me perdendo? Só sei que, com a companhia daqueles livros, achei, depois de alguns dias que me pareceram eternidades, a coragem de esconder a calça do uniforme que minha mãe insistia em usar para ir ao banheiro na madrugada... não sei como essa decisão cresceu em mim. Foi simples assim: certo dia, chegamos tarde da noite, tomamos um banho de gatas com uns pingos d’água e nos enfiamos no colchão. Deixei a tevê da vizinha embalar o sono da mãe e segurei o meu, já tinha decidido me rebelar.
Ouvi o ressonar da mãe que em breve, eu sabia, viraria ronco. Eu já não usava a calça do uniforme para a escola e poderia não me importar com o fato de ela continuar a pegá-la no meio da noite. Porém, era mais forte do que eu: ia esconder a calça. Minha mãe que se virasse para dar jeito de ir mijar. Eu sabia que ela não ia desconfiar de eu ter escondido a roupa, não ia querer acabar com a minha noite de sono só para cobrir o corpo. Dito e feito, sem jeito de me acordar, acabou colocando sua saia para ir ao banheiro. No dia seguinte, não houve como remediar: era ela que fedia, não para mim, mas para a patroa que nos mandou de volta para casa pagando a diária sem nem mesmo querer o serviço.
Desesperada com o fato de perder o pouco que nos sustentava, minha mãe buscou consulta de emergência, confessando ter dores por toda a barriga desde que tivemos de nos mudar para a pensão. O banheiro coletivo era algo que a agredia em todos os sentidos. Havia semanas que ela sentia latejar ao urinar, mas achava que ia passar do mesmo jeito que tinha começado. Esperamos um tanto até que ela fizesse os exames. Fiquei plantada lá, ao lado da mãe fedida, sem ter nenhum livro para enfiar a cara, esperando.
Ao pegar o exame, a médica correu com tudo porque era alta, altíssima a infecção urinária. A tia teve de ser avisada, porque a mãe corria mesmo risco. E assim ficamos, as três, sem trabalho, sem escola, sem perspectiva. Eu ia e vinha pela mão da minha tia visitar a mãe. Ela, sim, comia; eu acompanhava a beberança cotidiana da tia, sempre cambaleante. Já ia perdendo a esperança de tudo, de todas as pessoas...até que minha mãe saiu do hospital e voltamos para a pensão. Já não tínhamos nosso quarto e lá fomos tentar lugar na casa daquela patroa que expulsou a mãe fedida...Porém, e eu tinha aprendido as reviravoltas da vida nos livros, a sorte, finalmente, veio nos visitar: aquela mesma patroa medonha ia passar um mês no México e precisava mesmo de alguém para cuidar das gatas e das plantas. Benditos sejam todos os seres deste planeta, foi o que minha mãe disse, àquela altura, duramente advertida pela patroa de que, se voltasse a feder, não teria segunda chance. Também agradeci o milagre de que gatas e plantas eram capazes de operar. E, por isso, implorei à mãe para que tivéssemos gatas e plantas.
Os cheiros se tornaram uma espécie de fixação para mim: cachorros, gatos, porta-retratos, camas, pessoas...eu conhecia tudo pelo cheiro, como conhecia minha mãe. Com o tempo, as gatas me ensinaram a identificar as várias nuances dos cheiros dos xixis; as plantas, por sua vez, me mostraram a impossibilidade de negar as raízes que nos dão terra. Também entendi jeito de me comunicar com a mãe em relação aos cheiros. Entramos em acordo em relação a economizar um bocadinho a mais e trabalhar mais domingos para conseguir mudar para um quarto com banheiro. Glorioso foi o dia em que conseguimos, enfim, uma suíte em uma casa térrea arejada na Lapa e matrícula em nova escola: era grande, tinha plantas e, chegando cedo, dava para ver a gataria se dispersar antes da muvuca começar. A biblioteca continuou a ser meu refúgio, entretanto, não mais para esconder a vergonha pelos meus odores, mas para seguir descobrindo outros cheiros, inventados e imaginados nos poros do corpo.
A tia veio a falecer anos depois, já bem demente, sendo enterrada na gratuidade das covas em que são recebidos os que, em três meses, terão seus corpos exumados para outros poderem entrar. Contrariando minhas expectativas, minha mãe não conseguia se aguentar em pé tamanha a tristeza por sua morte. Me surpreendi com o amor escondido entre elas. A mãe, que tinha aprendido a se suportar, ameaçava sucumbir. Porém, bastou ouvir o coveiro falar que era hora do almoço para ela se lembrar que não podia deixar a permissão para sofrer virar permissividade. Fez uma rápida oração, segurando minhas mãos nas suas, murmurando que não podia perder o dia inteiro ali. Olhou ainda a terra remexida, balançou a cabeça como se usasse um antigo código conhecido apenas por ela e sua mana e partimos. Ela foi para a faxina diária; eu já tinha perdido o dia na escola, mas pedi para a mãe me deixar ficar na biblioteca.
Naquele dia, conheci outro cheiro, que acabou colado nas minhas mãos, apertadas pela mãe enquanto os vermes começavam a se agitar com o cadáver da tia. A mãe tinha uma força nas mãos que eu desconhecia...justo ela, que sempre me deixava as mãos soltas quando eu as pegava...daquela vez, eu é que tive de deixar as mãos soltas, para que não se machucassem nos ossos dos seus dedos inclementes. Senti um estrangulamento impiedoso. Não reclamei, não disse palavra, repetindo o comportamento antes da minha rebelião contra a urina da mãe no meu uniforme. Entretanto, daquela vez, fui a primeira a me incomodar com o cheiro impossível de qualificar. Quis enterrá-lo, para que não fosse novamente outro odor a nos oprimir.
Éramos duas mulheres que se afastavam do cemitério em que jazia a tia.
Não pude deixar de reconhecer o fantasma que nos rondou e que anos mais tarde se afirmaria como a única verdade das misérias que eu carregava: há que se aprender a enterrar odores e corpos.
Enterrei-me. Mas sobrevivi percorrendo os sonhos que a mãe, apesar de tudo, queria para a filha: carteira de trabalho e banheiro privativo. Só quando pude ouvir o som da terra seca bater forte no caixão que comprei para a mãe, única testemunha da minha existência, decidi pelo que seria só meu: cultivar um retângulo de terra com arrudas e damas da noite, plantas únicas por seus inconfundíveis aromas, capazes de afastar o que não presta.
* Giselle Larizzatti Agazzi é educadora, pesquisadora e escritora, formada em Letras, pela USP. Fez mestrado doutorado em Literatura Brasileira e em Tradução na mesma instituição. Sua trajetória abrange a docência na educação básica, a coordenação de projetos de formação de leitores e a pesquisa em educação literária, interculturalidade e literaturas de língua portuguesa. Atualmente, atua no ensino superior e no Programa de Mestrado Profissional em Práticas Docentes no Ensino Fundamental da Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES). Publicou poemas e contos esparsos, o livro infantil Uma mãe bem diferente (2018) e Janaína ou Todas as vidas dão romances , pela editora Patuá, em 2026