SANGUE QUE LAVA A ALMA.
Ana Cristina P. Vieira
No município de Mirinzal, Maranhão, existem três comunidades quilombolas que vêm desde o século XVII. Frechal, Rumo e Deserto.
Exatamente em Frechal, nasceu um menino, 7º filhos de um casal quilombola, após já terem 6 filhas. Era o primeiro filho. Cujo parto, em noite lua cheia foi difícil e tenebroso para a família. O garoto nasceu com deformidades no rosto: orelhas longas e afastadas, nariz avantajado e proeminente e olhos enormes e inclinados para cima. Seus pés e mãos também eram maiores do que o normal.
_ Vixe! Gritou o pai. Parece filho do capeta. Vão dizer que o capiroto te embuchou! Ele de casa não sai, ordenou!
A família o manteve cativo em casa até os 5 anos, quando começou a ajudar a mãe quebradeira de coco babaçu e tecedeira de cestos, além de auxiliar em suas todas suas tarefas diárias; e ao pai: a cultivar mandioca, milho, colher buriti e descascar babaçu para produzir carvão. Às vezes ia até o rio, ajudar o pai a pescar e puxar redes cheias peixes. Trabalho pesado para uma criança, mas, tinha que trabalhar para poder comer.
Severino ia crescendo com mãos calejadas, braços e pernas fortes e um grande silêncio no peito. Quase ninguém em casa falava com ele, era como se só existisse para trabalhar e conversar com os poucos animais que a família tinha em casa. Só lambidas do bode e do cachorrinho. Carinho humano, nenhum. Era inteligente e, atento, prestava atenção a tudo. Já estava com 7 anos e queria conhecer pessoas, ter amigos. Pensou em fugir para as comunidades vizinhas. Um dia arriscou e foi. Adiante, encontrou um grupo de crianças brincando. Ao se aproximar, todos saíram correndo e gritando: tem um monstro aqui.
Como se já não bastasse a rejeição familiar, agora era hora de conversar com o padre da Igreja, que ele vira um pouco mais ao longe. Correu para lá, e para azar dele estava havendo um batizado. A Igreja estava bem cheia de gente e todos se horrorizaram ao vê-lo adentrar timidamente no solo sagrado. Sebastião, homem conhecido na comunidade logo falou: Dever ser o filho do Tinoco lá de Frechal. Ele mantém o filho preso, para que ninguém o veja, pois ele é meio homem, meio bicho. Os garotos que correram dele entraram aos berros na Igreja: Padre! tem um monstro aqui. Benze ele! Sebastião urrava: Expulsa ele, filho do demo! Tira esta coisa daqui!
D. Nanã, uma senhora cafuza, curandeira benzedeira se aproximou de Severino e moveu umas folhas sobre sua cabeça. Eu tiro todo mal de você, criança infeliz! Confie em mim!
Sebastião então vociferou: Padre, a lenda conta que o 7º ou 8º filho de uma família que antes só teve filhas mulheres, se não for batizado até os 13 anos, este menino vira Lobisomem! Foi um alvoroço geral. Todos falavam ao mesmo tempo, se benziam, fugiam. D. Nanã, disse: Padre este menino, ainda não tem 13 anos. Batiza ele! Salva esta criança, já rejeitada por todos. O padre se recusou veementemente e expulsou o garoto. Filho de Satanás aqui não entra! Severino enxugou as lagrimas humilhado. Furioso, alarmou o padre: Me aguarde. Vou crescer e um dia eu volto!
D. Nanã abraçou o garoto e o levou de volta para casa. No caminho, conversou muito com ele. Era a primeira vez que ele ouvia uma voz doce e recebia um afago na alma. Já em Frechal, D. Nanã convenceu os pais de que era hora de colocarem o garoto na escola. E assim foi. A boa senhora foi na escola, conversou com a diretora, explicou a problemática e pediu que conversasse com as crianças e professores para que não o rejeitassem, nem o maltratassem também.
Severino frequentou a escola por 8 anos, sendo foco de zombaria, humilhações e agressões físicas e verbais. Seu maior ofensor e algoz chamava-se Zé Valente.
Foram anos de insultos, sarcasmo, mas Severino permaneceu, aparentemente calmo. Com os ouvidos cerrados e os lábios mudos, se dedicou muito aos estudos e manteve seus sentimentos e emoções trancafiados no sarcófago mental que sabia que, um dia, seria aberto. Estudava e cortava lenha, subia em palmeiras, descascava cocos, cortava folhas para forrar casas e sua mãe fazer cestaria, puxava redes repletas de peixes ao tempo em que seu corpo crescia e seus músculos vigorosos chamavam atenção. Num velho baú, guardava, objetos que um dia usaria em sua vingança; quando seu ódio, raiva e fúria fizessem detonar todas as mágoas, humilhações e sofrimentos que suas deformidades físicas, o fizeram sofrer. Um dia seriam úteis, dizia seu lado sombrio do inconsciente.
Cegou ao ensino médio, como um rapaz vigoroso, estudioso, astuto, amante das tradições locais, aparentemente calmo, mas com emoções que fervilhavam como um vulcão prestes a explodir. Mantinha comportamento passivo até se apaixonar, aos 18 anos, pela neta de D. Nanã. Sua grande alegria foi se sentir amado e correspondido pela primeira vez.
Passaram-se alguns meses e resolveram casar-se. Foram à única Igreja do município e o padre que se recusara a o batizar estava lá e novamente se recusou a casá-los, porque ele não fora batizado. Era fevereiro de 1822, mês de festas, porém, para ele, mais uma vez, não haveria nenhuma festa.
Pediu à noiva que voltassem para suas casas. No caminho de volta encontrou um bicho preguiça morto, ao pé de uma árvore. Não teve dúvidas. Seria usada em sua vingança. Seu coração urrava de emoção! Com uma faca afiada que sempre tinha na cintura, cortou as mãos do animal vibrando com as unhas afiadas e as levou consigo. Chegando em casa, abriu o baú, vestiu uma calça e um casaco pretos, nos quais vinha, há anos, colando pelos de seu bode, que ele tosquiava eventualmente. Vestiu a calça e o casaco. Colou as mãos com garras da preguiça nas mangas do casaco. Parecia realmente um lobisomem. Seus olhos se avermelharam de ódio e era dia de lua cheia. Soltou um urro que só o vento ouviu e rumou para a Igreja.
O Padre estava na sacristia e o relógio badalava meia noite. Severino quebrou a janela e num movimento preciso de quem salta de palmeiras com habilidade encarou o padre que só teve tempo de ouvir: Eu disse que voltaria. Você me rejeitou duas vezes! Com um golpe de direita as garras rasgaram o rosto do padre e noutro seguido, de esquerda, pescoço do padre jorrou sangue. Foram 8 rasgões dos quais escorriam sangue de culpa.
Severino correu como nunca, limpando o sangue me suas roupas, a caminho do rio mais piscoso. Jogou tudo no rio. As piranhas vieram ensandecidas pelo sangue e deram conta da oferenda inédita. Voltou para casa nu e acordou aliviado. Menos um .......
Chegou maio, mês de Congada em Frechal. O Folclore local sempre o animara e, usando meias no rosto, para não chamar atenção de suas feições disformes, participava regularmente. A luta simbólica entre mouros e cristãos ou pagãos batizados, sempre o estimulara a participar como pagão, pois não fora batizado. A vida lhe negara beleza, companheirismo, ter amizades e até mesmo o direito de ser cristão.
Em sua mente ressentida, já se vingara de quem lhe negara o direito ao batismo. Agora era hora de mostrar como os pagãos podem ser mais fortes e sobreviverem aos preconceitos e martírios que sofrem os menos favorecidos e vilipendiados.
Na Congada, os participantes perfilados em frente aos oponentes combatem entre si. Armados de varas, seus golpes marcam o compasso da música e da festa. A participação popular é enorme. Muita gente se aglomera para ver a luta e dançar. Desta vez, Severino se posicionou com o rosto encoberto por meia preta, para não sofrer deboches, exatamente em frente a Sebastião. O “expulsa ele daqui” de sua infância, havia ficado marcado a ferro e fogo em sua mente. No baú de objetos ocultos, Severino guardava uma vara, com um canivete afiado encrustado em sua ponta, que emergiria a um simples apertar de um botão estrategicamente colocado para este fim.
A festa começou. A luta foi ficando acirrada. Sebastião se sentia “o importante, o conhecido”, mas Severino era mais forte, ágil e habilidoso. Sebastião estava perdendo feio. Desesperado gritou: Expulsem ele daqui! Não prestou” Severino acionou o botão oculto e o canivete dilacerou num golpe certeiro a perna do adversário, atingindo a artéria e a veia femorais do adversário. Sebastião caiu no chão sobre uma poça de sangue. O povo o circundou. Os integrantes da luta debandaram e Severino se misturou ao povo, tirando a indumentaria característica dos competidores. Ninguém sabe, ninguém viu. Foi um alvoroço só! Sebastião estava excluído, para sempre, até da habilidade de andar.
A maior festa folclórica do Maranhão é o Bumba meu boi, também conhecido como Boi- Bumbá. ou Boi-de-Zabumba. O grande sonho de Severino era ser o Boi, num destes festejos. Ao longo dos anos, fora confeccionando a vestimenta, rica, colorida, linda, com a cabeça do boi que esconderia sua deformidade facial. Disfarce perfeito para encobrir seus complexos, traumas, inseguranças e frustações. Estava tudo guardado em seu baú. Um dia, dançando, girando, brincando, a estória do boi morto que renasceu ou ressuscitou, ou seja, um boi encantado, ainda lhe seria útil, para se vingar dos que mataram seu amor-próprio. Ele renasceria belo e garboso como o personagem central deste festejo tão significativo quanto emblemático.
Já era junho. Severino havia sido premiado, como o melhor aluno da escola. Sua participação nos ensaios das festas folclóricas ao longo de anos, era exemplar e louvada.
Houve um concurso da fantasia mais bonita e a sua, foi a vencedora deste ano. Ele seria enfim, o destaque de beleza e orgulho de sua comunidade ancestral e, ser seu elemento de transformação, era a tônica.
Ao descobrir que seu maior desafeto Zé Valente, que o tripudiara por anos a fio, seria o narrador da festa, não pestanejou. Tirou a cabeça do boi do baú, afiou os chifres, tornando-os os mais pontiagudos possíveis e armou mentalmente a fatídica morte deste ser que o torturava por anos consecutivos.
Chegou julho e a grande festa encheu o município de gente vinda de todo o Maranhão. Uma festança memorável. Centenas de participantes trajados de índios, colonizadores e outras figuras simbólicas da cultura local, dançavam alegremente festejando a cultura, a religiosidades e as crenças locais. O sonho de Severino era a transformação. Seria esta sua oportunidade de não ser julgado pelo seu aspecto exterior, mas, o melhor Boi já visto, com ânsia de renascer?
Chegou o grande dia. Severino dançou, rodopiou, feliz como nunca! No palanque central estavam D. Nanã e o famigerado Zé Valente, narrando a festa. Num momento crucial, Zé Valente mandou parar a música e anunciou: Nosso monstro da comunidade está escondendo sua cara horrenda atrás da máscara do boi! D. Nanã tampou a boca dele. Empurrada, D. Nanã caiu no chão. O Boi Zabumba se enfureceu de vez e enfiou com força o chifre afiado na barriga do desgraçado. D. Nanã levantou e mandou a festa continuar. Tudo parecia um teatro. Zé Valente caiu já morto sobre uma estaca que existia à sua frente. Vingança consumada. A música voltou e o povo continuou a dançar e cantar O Boi girava de alegria sobre o sangue do inimigo. Então caiu desacordado. D. Nanã lhe deu ervas do esquecimento, para apagar da memória o sofrimento e mágoas anteriores. O Boi Bumbá renascia para outra vida. Lenda e realidade se fundiam. Sabedoria ancestral secular.
Ana Cristina P. Vieira é museóloga, pós-graduada em Administração de Museus e Bens Culturais, analista ambiental e escritora. É autora de 2 livros sobre meio ambiente e coautora em mais 4 sobre o tema. Escreveu 3 livros infanto-juvenis: “Pedro O menino Imperador”, A menina que queria conhecer o mundo” e “O mundo ao redor de Jan Jan” Coautora em 3 coletâneas literárias “Essas Mulheres Maravilhosas e suas Histórias Inspiradoras”, “Contos Macabros 1 e 2”. Coautora na Antologia “Cartas a D. Pedro II”. Está trabalhando em mais 3 livros: “Alzheimer, além do amor o cuidado”; “J. Botânico, um bairro e sua história” e “A ancestralidade que existe em mim.”