Eleições 2026 e o paradoxo do crescimento
Por André Carreira*
Em análise clássica, Celso Furtado certa vez descreveu o Brasil como uma “construção interrompida”. Para ele, mesmo em períodos de relativa estabilidade política e econômica, falhamos sistematicamente em incluir a população mais pobre de forma justa e de maneira consistente devido à ausência de reformas de caráter estrutural. Relembrar Furtado nos permite analisar a eleição de 2026 para além de uma mera disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro ou entre os campos petista e bolsonarista. O verdadeiro enigma não é (apenas) quem vencerá a corrida presidencial. É entender por que um país que voltou a crescer, reduziu a pobreza, gerou empregos e recuperou protagonismo internacional continua a produzir níveis tão elevados de insegurança, frustração e apoio a projetos políticos de extrema direita comprometidos com a erosão das instituições democráticas, radicalismo de mercado e uma agenda que tende a aprofundar desigualdades de classe, raça e gênero.
É justamente nesse ponto que o caso brasileiro adquire relevância internacional. Os dilemas enfrentados pelo país são cada vez mais comuns em diversas democracias e fazem com que nos perguntemos: por que sociedades que parecem avançar continuam a gerar descontentamento político? Talvez a questão já não seja apenas quem vence as eleições, mas o que essas eleições revelam sobre os limites do capitalismo contemporâneo e sobre a incapacidade das nossas instituições de transformar crescimento econômico em bem-estar coletivo. No caso do Brasil, isso é visto claramente em como parte da população continua enfrentando formas persistentes de insegurança econômica associadas ao endividamento das famílias, à precarização do trabalho e à frustração de expectativas de mobilidade social.
À primeira vista, o cenário parece contraditório. Desde o retorno de Lula à Presidência, o Brasil registrou queda do desemprego, redução da pobreza, expansão de programas sociais (por exemplo, retomada e ampliação do Bolsa Família, relançamento do Minha Casa Minha Vida, reativação do programa Mais Médicos e criação de iniciativas como o Pé-de-Meia) e crescimento econômico acima das expectativas. Ao mesmo tempo, recuperou visibilidade internacional como ator relevante nos debates sobre desenvolvimento e mudança climática. Ainda assim, o bolsonarismo permanece altamente competitivo e continua a mobilizar parcelas expressivas do eleitorado.
Em alguma medida, é possível explicar essa realidade pela força da “marca Bolsonaro”, pelas guerras culturais ou pela persistência do antipetismo. Todos esses fatores ajudam a compreender o fenômeno. Mas talvez não alcancem a questão mais profunda. O bolsonarismo não sobrevive apesar da recuperação econômica. Ele sobrevive porque a recuperação econômica, embora real, não enfrentou plenamente as estruturas que continuam produzindo insegurança, desigualdade e falta de perspectiva para grande parte da população.
O sociólogo Francisco de Oliveira argumentava que o subdesenvolvimento não é uma etapa anterior ao desenvolvimento, como muitas vezes se pensa. Para ele, o subdesenvolvimento é o resultado de um processo de desenvolvimento que ocorreu de forma desigual e incompleta, produzindo crescimento econômico sem superar problemas estruturais como a pobreza, a dependência e a concentração de riqueza. Vista por essa lente, a persistência do descontentamento em meio à recuperação econômica deixa de parecer um paradoxo. Ela passa a revelar uma característica estrutural do desenvolvimento brasileiro: a capacidade de produzir crescimento econômico sem transformar, na mesma intensidade, as relações de poder e as condições que reproduzem vulnerabilidade social. A política passa, então, a girar em torno da administração da escassez, e o debate deixa de ser sobre como desenvolver o país e passa a ser sobre quais limitações aceitar.
Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada. O Brasil tem instituições democráticas consolidadas, mas continua marcado por uma das mais elevadas concentrações de poder econômico do mundo. Governos mudam e coalizões se alternam, mas parte significativa das decisões que moldam os rumos da economia continua submetida à influência de grupos com enorme capacidade de condicionar prioridades nacionais. Seja no agronegócio, no sistema financeiro, na propriedade dos meios de comunicação ou no poder de lobby exercido no Congresso Nacional, determinados grupos continuam a exercer influência desproporcional sobre os rumos da economia brasileira.
Isso não significa que as eleições não importem. Elas importam, e muito. Mas significa que as escolhas democráticas operam dentro de limites que raramente são discutidos de forma aberta. O desafio, portanto, não é apenas ampliar a democracia política, mas também democratizar o poder econômico.
A persistência do bolsonarismo deve ser compreendida nesse contexto mais amplo. Ela não constitui uma anomalia histórica (embora pareça), nem uma simples consequência da polarização política. É, em parte, o sintoma de um modelo de desenvolvimento que ampliou a inclusão social sem alterar de forma proporcional as estruturas que produzem desigualdade, insegurança e concentração de poder.
Por isso, a pergunta mais importante desta eleição não é quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos (o que não exclui a importância de se derrotar eleitoralmente a extrema-direita). A questão decisiva é outra: por que o crescimento econômico continua incapaz de gerar, para amplos setores da sociedade, uma experiência concreta de segurança, pertencimento e esperança?
Para além de distribuir riquezas em país construído historicamente a partir de uma lógica de exploração e exclusão, é preciso democratizar o poder de decidir o que será produzido, como será produzido e em benefício de quem será produzido. Em outras palavras, não se trata apenas de distribuir riqueza. Trata-se de disputar o controle sobre os processos que a criam e desafiam o capitalismo dependente.
É essa questão que atravessa a eleição de 2026. E é ela que continuará presente muito depois da apuração dos votos.
*-Professor e Doutor em História Social (FFLCH/USP)